segunda-feira, 20 de maio de 2013
quarta-feira, 6 de março de 2013
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
Existem
duas categorias injustiçadas de poeta: os publicitários e os tradutores.
Ambos
escolheram passar a vida revirando palavras, um trabalho de artesão,
minimalista, no qual um vocábulo, uma vírgulinha maldita muda tudo. O primeiro,
o publicitário, é o anônimo criador de cartas inesquecíveis, discursos
apoteóticos e conceitos profundos, mas vende seu próprio filho por migalhas e
assiste tudo distante e em silêncio. Sem falar que ele passa pela vistoria do
mais incapaz crítico literário, o cliente.
Já
o tradutor, coitado do tradutor! Lê Dostoievski em russo e se incumbe da missão
de colocar tudo em português - diga-se de passagem, a língua mais cretina do
globo, certamente bela, mas difícil, fazida como são as coisas belas - caso
ele seja excepcional e consiga reescrever a obra, louvado seja o autor. Ninguém
se lembra do pobre tradutor, só os eruditos, que geralmente lembram
negativamente e enchem a boca ao dizer: bom mesmo é fazer como eu, ler em
russo.
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Às vezes preciso escrever pra
organizar as ideias.
Começo essa reflexão escrita com
a intenção de esclarecer, especialmente para eu mesmo, a seguinte questão:
porque sinto repulsa por Comparações Trágicas? (aquelas que apontam situações
de extrema dor como meio para deslegitimizar outros questionamentos).
É possível que não encontre a
resposta, restando-me apenas admitir a imaturidade, frieza, recalque ou qualquer
coisa que os valha. Na verdade, se não conseguir racionalizar essa repulsa,
terei de abandoná-la.
Assim, inicio a jornada com a
definição do vocábulo catarse:
Catarse (ss). [Do Gr. Kátharsis] 3. Psicol/Teatr. Efeito moral e purificador
da tragédia clássica, cujas situações dramáticas de extrema intensidade e
violência, trazem a tona o sentimento de terror e piedade dos espectadores,
proporcionando-lhes o alívio, ou a purgação desses sentimentos.
Recorro ao dicionário pois julgo
a filologia e o estudo das palavras como essenciais na compreensão do modo como
entendemos o mundo, uma vez que são exatamente elas, as palavras, o berço da
busca por, de certa forma e tanto quanto possível, arquetipar os sentimentos.
O princípio das Comparações Trágicas
é exatamente esse: o da catarse forçada.
Quem és tu pra questionar algo
quando existe a Criança da África, os Escravos Modernos na China, os
Deficientes. Agradece a Deus por não vos ter feito à semelhança nem de um, nem
de outro, amém. A Comparação Trágica, no entanto, não tem resultado se não o de
expurgar e exorcizar qualquer dilema através de parábolas que levam à culpa e,
portanto, ao autoflagelo redentor, porém estéril. (qualquer semelhança com a
culpa da cruz não é mera coincidência.)
A Comparação Trágica usa da
compaixão e da empatia do homem para induzir ao consentimento de um suposto crime,
o pecado de pensar e questionar a vida, e assim reduz qualquer inquietação ao
supérfluo.
A empatia e a compaixão são
sentimentos que surgem a partir da existência e identificação com o outro, não
existe empatia sem o reconhecimento do diferente/igual no outro (não pergunte
por quem os sinos dobram; eles dobram por ti). Já a inquietude, prefiro chamar
de “insustentável leveza”, corresponde apenas ao indivíduo. Desta forma, questionar
a vida e a sociedade não se opõe, em nenhuma instância, ao “compadecer-se do
próximo”, confirmando a falácia da Comparação Trágica. É afinal nela que mora o
verdadeiro egoísmo, uma vez que se baseia na gratidão de “ser diferente
daqueles infelizes”.
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Eu sempre mantenho um Word aberto no meu pc, nele escrevo tudo que vem aleatoriamente a cabeça:
Às vezes nossa mente é misteriosa e nos leva a fazer todo o tipo de aleatoriedade imaginável, basta um breve passeio pela World Wide Web para entender que nós, seres humanos, somos demasiado estranhos. A normalidade é o estado hibernal do nosso íntimo bizarro, fadado a, inevitavelmente, acordar, mesmo que por um cáustico momento. Aqueles que são incapazes de hibernar a sua loucura são exatamente aqueles a quem chamamos de loucos.
Queria fazer de mim um poço de inspiração, mas não
tenho como esconder o fato de que sou seco, nada sai de mim, nada. Falar sobre
não conseguir falar, que original. Que profundo Henrique! Hahahahaha!
"Se a própria existência cotidiana lhe parecer
pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta
para extrair as suas riquezas."
Sempre que leio certo autores, perco por completo a
vontade de escrever. Quem sou pra querer dizer algo enquanto existe um Bauman
no mundo?
Às vezes nossa mente é misteriosa e nos leva a fazer todo o tipo de aleatoriedade imaginável, basta um breve passeio pela World Wide Web para entender que nós, seres humanos, somos demasiado estranhos. A normalidade é o estado hibernal do nosso íntimo bizarro, fadado a, inevitavelmente, acordar, mesmo que por um cáustico momento. Aqueles que são incapazes de hibernar a sua loucura são exatamente aqueles a quem chamamos de loucos.
Em geral, são esses hiatos de doidice que proporcionam as
melhores histórias, aquelas que ou temos vergonha e, portanto, escondemos em nosso
íntimo mais obscuro, ou aquelas que adoramos contar para os amigos, em uma mesa
de bar, como prova incontestável da nossa condição humana em toda sua glória e
perdição.
Dada esta breve introdução, o que segue são pequenos causos
que o cotidiano trouxe aos meus ouvidos. Espero ter a habilidade necessária
para transpor para o papel toda a carga de tristeza, humor, peso ou leveza que
neles está resguardada.
Fezes.
Fezes são polêmicas.
Caminho a esmo pelo mundo de meu quarto. Tenho a companhia de
alguns imortais. Tenho cede e bebo muito. Pdfs, mp3, avi. Mas não chego a lugar
nenhum.
“Começaremos a caminhar hoje e veremos o mundo e o modo como
ele caminha e fala, o modo como ele realmente é. Agora quero ver tudo. E embora
nada do que entrar fará parte de mim no começo, após algum tempo tudo se
juntará lá dentro e se fundirá em mim. (...) Eu me agarrarei firme ao mundo
algum dia.”
Bauman é muito foda.
“Em sua essência, o desejo é um impulso de destruição. E,
embora de forma oblíqua, de autodestruição: o desejo é contaminado, desde o seu
nascimento, pela vontade de morrer. Esse é, porém, seu segredo mais bem
guardado – sobretudo de si mesmo.” Bauman, Amor Líquido.
A beleza intrínseca do nascer do sol.
Meditar no quarto
ouvindo som alto
A cama desfeita
e o olhar da TV
Vai para longe
Encontra ou esconde
Procura ou foge
Você
Meditar no canto
Ouvindo com encanto
Todo o pensamento
Se forma
Num domingo qualquer um
Vejo o sol que entra
pela fresta da janela
E me faz sorrir vendo
a poeira que reflete por aqui
Hoje não quero lembrar
daquilo que deixei passar
daquilo tudo que perdi
do compromisso de amanhã
hoje o sol vai me seguir
É um trabalho mental penoso discordar do mercado quanto ao
teu próprio valor. Não posso deixar ele me convencer que sou inferior.
Nada irrita mais um deprimido do que conselhos. É preciso
entender que, quando adentramos nesse estado mórbido de consciência, as
obviedades não nos atingem como aos demais, é que já foram ultrapassados quilômetros
inacabáveis desses clichês – tu tens que te mexer, é só fazer mais coisas,
acorda cedo, faz o que tu ama, faz o que te der dinheiro. Quando entramos nesse
oceano solitário e apático chamado de depressão, tais conselhos soam como ecos longínquos
de botes resgatando almas distantes.
O deprimido, acima de tudo, não vê nesses conselhos bem
intencionados a cura para o seu estado. Numa tentativa desesperada, eu decidi
observar meu passado na busca de um pouco de paz de espírito. Lembro-me dos
shows que fiz, gloriosos momentos da minha breve vida. O nervosismo febril que
antecede o palco, contrastando com a catarse inevitável daqueles instantes nos
quais já não há para onde correr e, portanto, a única saída é se entregar por
completo. Os aplausos, os bêbados e seus transes sonoros, as mulheres com
tesão, o calor das luzes do palco, o suor, o som, todos os sentimentos
transmitidos pelo som: alegria, ira, tristeza, amor em som.
É inegável o quanto amo a vida, mas esse amor é passional. Sentimentos,
ainda mais quando se tratando de amor, tendem a anular a lógica, portanto,
ainda que nostalgicamente apaixonado por alguns momentos do meu passado, a
resultante da equação da minha vida é triste.
Esses shows que recordo com tanto carinho foram lindos, mas
todos cover, uma cópia inferior de algo original. Quando tentei compor, vi-me impotente,
além do mais, fui expulso de minha primeira banda, a Yesterdays (cover de
Beatles), minha segunda, a Reis do Rodeio (cover de Kings of Leon) acabou
porque cansamos de tocar a mesma coisa e não conseguimos partir para nada
melhor, dois integrantes dessa mesma banda acabaram de gravar um álbum com
músicas próprias e começam já a ganhar espaço. Minha terceira banda, a Os
Valdaranha (banda de baile) acabou porque depois de três shows ninguém mais
queria nos contratar, exceto minha mãe.
O que isso prova? Prova que até mesmo meu amor pela música
foi frustrante, aliás, frustrado.
De quem é a culpa? Minha.
Por que? Porque sou incapaz. Esse é talvez o cerne da minha
depressão, a constatação de que sou incapaz.
Não se pegue pensando que a constatação a respeito da minha
impotência é resguardada meramente por minhas frustrações musicais, pois quando
entramos no meu universo profissional, o acumulo de pequenas tragédias é ainda
maior.
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Flagelo Honroso
Meu pequeno cão idoso volta e meia
me passa lições de vida. Ele já soma quinze anos e, portanto, leva consigo as
marcas da idade avançada, isso significa uma tosse constante, apenas três
dentes na boca e catarata nos olhos, mas não pensem que o quadro é de alguma
forma triste, pois ele continua extremamente fofinho e jovial.
Hoje o alimentei com uma saborosa
coxinha de frango, deixei inclusive o osso da ave junto ao seu pratinho, obviamente
a atração animal pelo o osso foi voraz. Acontece que, devido a pouca quantidade
de dentes, o quadrúpede era incapaz de aproveitar os prazeres de sua presa,
mais que isso, sua pequena boca estava levemente inflamada pelo tempo, o que
fazia com que sentisse uma dor excruciante ao carregar seu osso por aí, ouvi do
quarto o seu grunhido.
Tentei livrar o pequeno ser da tormenta
ao privá-lo da ave, esse porém era irredutível perante seu doloroso amor, foi
aí que percebi que não se pode privar um cão do seu osso, isso representa mais
do que a apreensão de um brinquedo, mas a retirada da honra canina. O deixei
grunhindo, sofrendo e feliz, com a altivez intacta.
Tudo isso pra dizer que existe
qualquer coisa de belo em não aceitar as próprias limitações, a recusa absoluta
à derrota, o nobre autoflagelo. Pra uns é mais dolorido, mas todos querem o
osso.
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