domingo, 27 de dezembro de 2009

Fingolfin

Faz muito tempo que não posto nada, resolvi então postar a história de Fingolfin, na minha opinião, o maior dentre todos os heróis da mitologia de Tolkien.

Vou citar dois trechos que contam seus dois maiores feitos, a travessia do extremo norte e sua luta contra Morgoth.

A travessia:



“Então, Fingolfin, ao ver que Fëanor o havia deixado para perecer em Araman ou retomar humilhado a Valinor, encheu-se de rancor. Desejava agora mais do que nunca chegar de algum modo a Terramédia para reencontrar Fëanor. Assim, ele e sua gente muito caminharam em condições deploráveis, mas seu valor e sua capacidade de resistência cresciam com as dificuldades, pois eram
um povo poderoso, os filhos mais velhos e imortais de Eru Ilúvatar, porém recém-chegados do Reino Abençoado e ainda não desgastados com o cansaço da Terra.
O ânimo de seus corações tinha energia; e, liderados por Fingolfin e seus filhos, e por Finrod e Galadriel, eles ousaram penetrar nas regiões mais hostis do norte. E, não encontrando nenhum outro
caminho, enfrentaram afinal o horror da Helcaraxë e os cruéis blocos de gelo. Poucos dos feitos dos noldor daí em diante suplantaram essa travessia desesperada em termos de dificuldade ou desgraças.
Ali, perderam Elenwë, a mulher de Turgon; e muitos outros também pereceram. E foi com uma hoste reduzida que Fingolfin afinal pôs os pés nas Terras de Fora.
Pouco amor por Fëanor ou por seus filhos tinham aqueles que marcharam sob seu comando e que soaram suas trombetas na Terra-média ao primeiro nascer da Lua.”


A luta contra Morgoth:




Ora, chegaram notícias a Hithlum de que Dorthonion estava perdida, os filhos de Finarfin, derrotados, e os filhos de Fëanor, expulsos de suas terras. Fingolfin então contemplou (como lhe parecia) a total destruição dos noldor, e a derrota irremediável de todas as suas casas. E, cheio de cólera e desespero, montou em Rochallor, seu cavalo magnífico, e partiu sozinho, sem que ninguém
pudesse contê-lo. Passou por Dor-nu-Fauglith como um vento em meio à poeira; e todos os que viram sua investida fugiram assustados, acreditando que o próprio Oromë chegara. Pois ele fora
dominado por uma loucura furiosa, tal que seus olhos brilhavam como os olhos dos Valar. Assim, chegou sozinho aos portões de Angband, fez soar sua trompa e golpeou mais uma vez as portas de
bronze, desafiando Morgoth a se apresentar para um combate homem a homem. E Morgoth veio.
Essa foi a última vez naquelas guerras em que ele atravessou as portas de seu reduto; e o que se diz é que não aceitou o desafio de bom grado.
Pois, embora seu poder fosse maior que tudo o que existe no mundo, ele era o único dos Valar que conhecia o medo. Agora, porém, não podia fugir ao desafio diante de seus capitães. Pois as rochas
reverberavam com a música aguda da trompa de Fingolfin, sua voz chegava clara e nítida às profundezas de Angband, e Fingolfin chamava Morgoth de covarde e de senhor de escravos. Por
isso, Morgoth veio, subindo lentamente de seu trono subterrâneo, e o ruído de seus passos era como trovões no seio da terra. E se apresentou trajando uma armadura negra.
Parou diante do Rei como uma torre, com sua coroa de ferro. E seu enorme escudo, negro sem brasão, lançava uma sombra como uma nuvem de tempestade. Fingolfin, entretanto, cintilava dentro
da sombra como uma estrela; pois sua malha era recoberta de prata, e seu escudo azul era engastado com cristais. E ele sacou sua espada Ringil, que refulgia como o gelo.
Morgoth então ergueu bem alto Grond, o Martelo do Mundo Subterrâneo, e o fez baixar como um raio. Fingolfin, porém, deu um salto para o lado, e Grond abriu um tremendo buraco na terra, de
onde jorraram fumaça e fogo. Muitas vezes Morgoth tentou esmagá-la, e a cada vez Fingolfin escapava com um salto, como o relâmpago que sai de uma nuvem escura. E fez sete ferimentos em
Morgoth; e sete vezes Morgoth deu um grito de agonia, com o que os exércitos de Angband se prostraram no chão, aflitos, e os gritos ecoaram pelas terras do norte.
Mas, por fim, o Rei se cansou, e Morgoth o empurrou para baixo com o escudo. Três vezes, Fingolfin foi esmagado até se ajoelhar, e três vezes ele se levantou portando seu escudo quebrado e
seu elmo amassado. Entretanto, a terra estava toda esburacada e rasgada ao seu redor, e ele tropeçou e caiu para trás aos pés de Morgoth. E Morgoth pôs o pé esquerdo sobre o pescoço de Fingolfin; e o peso era o de uma colina desmoronando. Contudo, num golpe final e desesperado, Fingolfin lhe cortou o pé com Ringil, e o sangue jorrou negro e fumegante, enchendo os buracos feitos por
Grond. Assim morreu Fingolfin, Rei Supremo dos noldor, o mais altivo e destemido dos Reis élficos de outrora. Os orcs não se vangloriaram desse duelo junto aos portões. Nem os elfos cantam
esse feito, pois é por demais profunda sua dor.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Escrever por escrever.


Já era madrugada quando Romero entrou naquele crépido bar do subúrbio. Ele abriu a porta, viu a fumaça, inalou o fedor, o bar estava vazio, poucas pessoas, o que precisava, estivera estranho o dia inteiro, queria ir ao fundo do poço e o encontrou.

Ele acordara diferente. A morte é tão visível quanto qualquer coisa, não se vê por medo, não se vê pois só vemos uma vez na vida e por período curto demais para entende-la, mas se sente, se acorda diferente, se sente na pele quando os tênues laços que prendem a vida começam a se soltar e, ao desfazer do ultimo nó, o acorde final é inconfundível. Antes de morrer nós inexoravelmente tomamos consciência disso, eis ai a maior punição divida, saber que se vai morrer e entender o que isso significa.

-Uma cerveja com wisky – disse Romero cabisbaixo.

Nesse momento uma figura encapuzada que havia passado despercebida pela maioria dos bêbados daquele bar imundo levantou-se calmamente e olhou fundo nos olhos de Romero.

-Lembra de mim? - Disse o homem com a calma de quem parece não ter nada a perder.

Sem mais delongas e com tamanha agilidade o estranho acerta um tiro certeiro no peito de seu oponente que imediatamente cai sob balcão. Já morto.

Se ouve o som do sangue pingando no chão, o resto é silencio. Os bêbados do subúrbio respondem ao horror com silêncio e nada mais. Em suas sub vidas regadas a vícios, não há mais espaço para a compaixão ou histeria, somente silêncio. Todos olham para baixo, o sangue pinga e agora se ouvem os passos do homem que sai do bar com a mesma calma com que se levantara.

Tenho um corpo para me livrar, pensa o dono da espelunca de traz do balcão, mas essa noite ficará ai mesmo, amanhã te dou aos corvos.

A noite continua, os bêbados bebem, os viciados fumam crack, os travestis se prostituem, mas hoje em silêncio, o cheiro de morte ainda é novo no ar.

Distante de lá, ao leste do trevo 89, uma mulher ri e chora ao mesmo tempo, como fazem as loucas ao se depararem com trágicas ironias.

O trevo 89 era de fato um lugar tenebroso, conhecido por todos os homens de má índole em um raio de cem quilômetros, o chamado deposito de corpos. Era a união de três estradas de chão batido, ao lado de um lago aonde desembocava boa parte do lixo da metrópole. Gente também é lixo, pensava o burgues enquanto preparava uma boa refeição.

Longe dos olhos da opinião publica e da pseudo compaixão social, o trevo 89 era o lugar perfeito para abrigar os dejetos da colmeia. O importante é o lixo sair da frente da classe A/B, não estando lá, não existe. Para um problema deixar de existir, basta que ele vire o problema dos outros.

domingo, 2 de agosto de 2009

São sete e vinte da manhã e eu ainda não dormi, o porquê de eu resolver escrever um poema, eu realmente não me lembro, mas quando - a uns 20 minutos atrás - eu resolvi que o faria, a idéia me pareceu deveras interessante, enfim, saiu essa merda. Porque eu postei? Não sei também.


Tentando penetrar surdamente no reino das palavras
Percebi também ser cego
Caído de ego ferido
Deferi palavra qualquer
Na métrica de um mendigo
Tateando no escuro
Procurei mas não achei
As palavras me barraram
E a chave não encontrei
Na soleira do portal
Vi a borda de seu reino
Perene, frio e confuso

Na fronteira de suas terras
Lá vencido cai
Sob os umbrais de seu reinado
Para eu mesmo prometi
Voltaria lá um dia
E teria de entrar
Caçaria as palavras
Até as certas encontrar.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

O mundo.

Seria muita pretensão e burrice de minha parte dizer que conheço o mundo, porém após vinte anos de existência me sinto contente ao afirmar que já me perdi tanto nos becos de Veneza quanto nas avenidas de Nova Iorque, que meus olhos já contemplaram a genialidade exposta nua em telas, que minhas mãos já tocaram tanto os muros ancestrais de minha linhagem quanto os das gigantescas fortificações de civilizações perdidas, que minhas pernas já escalaram montanhas em cujos cumes se escondem segredos, que minha boca já provou da culinária de hábeis e tão distintas mãos, vi impérios em seu apogeu, vi impérios decaídos porém ainda orgulhosos, vi impérios de outrora dos quais hoje só restam escombros, descobri que todos somos tão diferentemente iguais e mais que tudo isso, vi que ainda há muito para ver.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Sonho

Estava onde sempre fico, embaixo da ultima barra da geral em direção a arquibancada, eram trinta do segundo tempo, 0 a 0 e o Maxi havia sido expulso injustamente. A torcida que havia cantado muito o tempo todo agora se via fadigada, inquieta, imóvel assistindo a agonia do Grêmio em campo. Era tarde de mais e tarde de mais era pior do que nunca! Talvez o Cruzeiro marcasse um gol, talvez todos nos nos calássemos e furtivamente voltássemos para casa ao som das cornetas rubras, talvez.
Então de subto, eu senti, e todo o olímpico sentiu comigo, sem sombra de duvidas: uma mudança. Sentia o vento no rosto! Surgia uma luz fraca, distante, talvez um sinalizador no outro lado do estádio, e como em resposta veio de longe uma outra nota. Bumbos, bumbos, bumbos. Ecoaram com força nas encostas desgastadas do monumental. Grandes bumbos do sul, num clangor alucinado.
Àquele som, as figuras curvadas na torcida de repente se aprumaram, eram altos e orgulhosos novamente e se levantado e pulando 50 mil gritaram em uni sonoro com uma voz poderosa, mais cristalina que qualquer um já ouvira uma multidão produzir antes.
Vamos Gremio vamos
Cantamos todos com a geral
Vamos seguir a canção
Sempre em busca do mundial
Eu sou do Gremio senhor
Cantamos todos com alegria
Mesmo não sendo campeão
O sentimento não se termina
É tricolor e dalhe tricolo
Não era mais um canto de apoio, não era mais um canto de guerra, era na verdade, nada mais nada menos que uma declaração de amor, de amor pelo Grêmio e por tudo que ele nos faz sentir, era um canto de 50 mil pessoas tão diferentes que durante 90 min são tão iguais. Se ouvia todas as partes do estadio cantando com coração e já não cantávamos pra os jogadores, cantávamos uns para os outros, afinal, somos nós que verdadeiramente somos o Grêmio.
Eram trinta e cinco minutos do segundo tempo quando, embalado por dezenas de milhares de vozes e milões de corações, o Léo abandona a zaga e corre veloz por toda a lateral do campo, entra na areá e, sem muito ângulo explode um chute na quina da trave, a bola sobe e vai cair no bico da grande área, mas antes que ela caia no chão Tcheco a encontra e em um chute magistral, tal qual somente quem joga pela honra de uma massa é capaz de chutar, abre o placar.

segunda-feira, 15 de junho de 2009


Os judeus desempenharam um papel essencial na criação da mentalidade humana atual, seja ela judaica, cristã ou muçulmana, é quase impossível imaginar como teria sido o mundo sem o judaísmo. É fato que todos nós queremos construir Jerusalém. Todos nós nos deslocamos de volta às Cidades da Planície. Parece que o papel dos judeus é focalizar e dramatizar essas experiencias comuns da humanidade, e transformar seu destino particular em uma moral universal. Porem, se os judeus detêm esse papel, quem o escreveu para eles?
Desde Abraão, o Errante; Moisés, o Legislador; Jesus, o enigmático Mestre; Maimônides, a maior das mentes medievais; Spinoza, o fundador do secularismo; Heine, o progenitor do espirito moderno; ate os gnósticos dos últimos tempos como Marx e Freud e os românticos como Disraeli e Herzl, as mulheres desde Sara e Rute a Rosa de Luxemburgo e Golda Meir, os criadores dos pensamentos, sons e imagens do século vinte, Mahler, Schoemberg, Kafka, Modigliani e Proust; e os rabinos e eruditos, os judeus da Corte, os Rotschilds e Sassoons, os mongóis de Hollywood, libertistas da Broadway, os gansters de Nova Iorque e pioneiros de Rand, os combatentes e estadistas. A verdade é que os judeus acreditaram ser um povo especial com tamanha unanimidade e paixão, e por tão longo período, que chegaram a sê-lo. Na realidade tiveram esse papel porque o escreveram para si próprios. Talvez ai esteja a chave de nossa história.

segunda-feira, 8 de junho de 2009


O sub-homem

Certa feita recebi um olhar que nunca saiu da minha cabeça, era um olhar de desprezo, um olhar raivoso , mas acima de tudo, era um olhar indiferente.
Eu fazia pré vestibular no anglo, no meu caso eu não exatamente fazia, mas volta e meia aparecia lá. Eis que um dia, no intervalo, aparece um amigo meu, todo pintado, tinha passado no vestibular, pedia uns trocados, havia levado um violento trote, resolvi ajuda-lo, mas não dando moedas, pelo folclore, pela brincadeira, iria usar minha capacidade de equilibrar coisas girando para ajuda-lo na busca por trocados. Fui com ele atá a sinaleira e quando o sinal ficou vermelho comecei a girar meu caderno, enquanto isso o pintado pedia dinheiro. Foi quando olhei para os olhos do motorista de um dos carros que perdi o sorriso do rosto.
Era um olhar de desprezo, um olhar raivoso , mas acima de tudo, era um olhar indiferente. Aquele homem não olhou pra mim como um homem, mas como algo inferior a isso, como um empecilho no seu dia, como um buraco na estrada, os outros motoristas evitavam olhar para mim, eu era um sub homem.
Eu sempre fui altivo, ando de peito estufado, gosto de sapatos pois fico com uma postura ainda mais imponente, me sinto muitas vezes, por mais que erradamente, no topo da piramide intelectual, social, porque não, alimentar, porém, durante aqueles minutos entre o sinal vermelho e o verde, fui visto como nunca havia sido antes, como um verme.
Hoje, dirigindo, quando vi um pedinte na sinaleira, olhei nos seus olhos e vi que, mais triste do que sua pobreza, mais triste do que a sociedade, do que a família péssima que ele teve, que seu histórico de drogas, mais triste até mesmo que a fome, era o seu olhar, o olhar de quem aceitou ser um sub homem, o olhar de quem recebe o dia inteiro, todos os dias, o olhar que tanto me marcou.